Na filosofia grega antiga, o amor é visto ou interpretado em quatro óticas. São elas: o amor Ágape, Storge, Phileo e Eros. Vamos ver como são definidos cada uma delas e iremos embasá-las com textos que encontramos nas Escrituras Sagradas, para melhor entendimento do leitor.
Mas antes, gostaríamos de lhe fazer algumas perguntas: você tem muitos amigos? Eu costumo dizer que não precisamos ter muitos, comparando-os com bons livros. Estes, quando são muito bons (mesmo tendo poucos na estante), de vez em quando, fazemos uma releitura de tão edificantes que são. Aqueles, mesmo sendo poucos, se precisarmos deles em quaisquer circunstâncias, estarão sempre prontos para nos atender e ajudar.
E você daria a sua vida pela vida de um amigo seu? Por entender que o ama tanto e vendo-o numa situação de que poderia ser morto, se voluntariaria para morrer em seu lugar? Se fosse eu, é quase certo que não. Talvez, se fosse para defender meus pais, os filhos, os irmãos, a nossa família ou a nossa propriedade (moradia), até que seria possível.
Pois é sobre isso, que queremos falar hoje; sobre o Amor. Mas de uma forma diferente e, até poderíamos dizer; hierarquizada! Passemos então, a descrever estas nuances em que os gregos antigos, tinham como sua pratica cotidiana:
. O Amor Ágape: Esta palavra é de origem grega e significa amor. Quando ela é usada na Bíblia significa ou descreve um amor incondicional. Dito de outra forma, é o amor divino, voluntário, generoso e que exige um grande sacrifício. Ele é considerado o mais elevado e puro sentimento que pode ser expressado por nós: “Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três, mas o maior destes é o amor” (cf. 1 Coríntios 13:13).
Jesus Cristo fez um enorme sacrifício, quando pagou o castigo pelas nossas transgressões e que era para ser nosso, tomando o nosso lugar, ou seja, Ele deu a sua vida para nos absolver e quitar a nossa dívida. Lembrando que nem éramos seus amigos e, muito menos, seus discípulos ou seguidores. Ele morreu por nos amar primeiro: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá (e deu) a vida pelos seus amigos” (cf. João 15:13).
Ele sim, Jesus Cristo, se colocou no meu e no seu lugar, morreu por nós, sendo que éramos (e ainda somos) desprezíveis pecadores.
Isaías 53:3-7. Era desprezado, e o mais rejeitado entre os homens, homem de dores, e experimentado nos trabalhos; e, como um de quem os homens escondiam o rosto, era desprezado, e não fizemos dele caso algum. Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus, e oprimido. Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões, e moído por causa das nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados. Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo seu caminho; mas o Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de nós todos. Ele foi oprimido e afligido, mas não abriu a sua boca; como um cordeiro foi levado ao matadouro, e como a ovelha muda perante os seus tosquiadores, assim ele não abriu a sua boca.
. O Amor Storge: Este termo tem origem no grego moderno e é usado para indicar uma afeição natural, tipo aquela que é vista e apresentada naturalmente entre pais e filhos, irmãos e parentes próximos. É uma atitude afetuosa, cuidadosa e instintiva, muito associada ao vinculo familiar. Ele costuma apresentar-se como sendo confiável, protetor e provisor: “José instalou o seu pai e os seus irmãos e deu-lhes propriedade na melhor parte das terras do Egito, (…), providenciou também sustento para seu pai, para seus irmãos e para toda a sua família, de acordo com o filho de cada um” (cf. Gênesis 47:11-12).
Pense comigo: por tudo que seus irmãos (meios-irmãos) fizeram de mal a ele, será que não teria passado em sua mente de ir as forras, ou seja, se vingar deles? (se fosse em nossos dias, conosco, seria quase certo que sim). A bíblia não relata nada neste sentido. Portanto, em nossa humilde interpretação, ele, o governador do Egito, a segunda maior autoridade daquele país, preocupou-se de como estava o seu pai (Jacó-Israel) e seus irmãos. Lembrando que na época em que o venderam como escravo, ele era o filho da velhice de Jacó com Raquel, a mulher que ele mais amava. Agora, estando no Egito tantos anos, nasceu Benjamim, também filho de Raquel, logo, seu irmão biológico.
Gênesis 35:15-20. E chamou Jacó aquele lugar, onde Deus falara com ele, Betel. E partiram de Betel; e havia ainda um pequeno espaço de terra para chegar a Efrata, e deu à Luz Raquel, e ela teve trabalho em seu parto. E aconteceu que, tendo ela trabalho em seu parto, lhe disse a parteira: Não temas, porque também este filho terás. E aconteceu que, saindo-se lhe a alma (porque morreu), chamou-lhe Benoni; mas seu pai (Jacó) chamou-lhe Benjamim. Assim morreu Raquel, e foi sepultada no caminho de Efrata; que é Belém.
. O Amor Phileo: A etimologia desta palavra vem do idioma grego e significa o amor que exige correspondência ou reciprocidade. É o amor que se refere a amizade e ao companheirismo. Podendo ser chamado de amor fraternal ou de amor-amizade. Ele se apresenta de forma muito próxima com outra (s) pessoa (s), indo além de mero companheirismo: “Jônatas fez uma aliança com Davi, porque o amava como a sua própria alma” (cf. 1 Samuel 18:1-4).
1 Samuel 20:16-17. Assim fez Jônatas aliança com a casa de Davi, dizendo: O Senhor o requeira da mão dos inimigos de Davi. E Jônatas fez jurar a Davi de novo, porquanto o amava; porque o amava com todo o amor da sua alma.
Existe alguns leitores da Sagrada Escritura e não são poucos, que deturpam e distorcem intencionalmente o que nela está narrado e registrado, dizendo que entre Davi e Jônatas, havia um relacionamento homoafetivo[1]. Como não lemos nada acerca deste tipo de interpretação, que conste na Palavra de Deus (a Bíblia), entendemos ser a representatividade do amor Filia, ou seja, um amor entre verdadeiros amigos. Uma amizade revestida de companheirismo, confiança, lealdade e sacrificial.
. O Amor Eros: Não encontramos esta palavra sendo usada no Novo Testamento (NT). No entanto, na Grécia Antiga, era um dos quatro termos usados para se referir ao amor, juntamente com outros três termos, que são: o storge, philia e ágape. O amor eros é o tipo de relacionamento ou sentimento que se mostra muito apaixonado ou romântico.
Mas também, demonstra muita sensualidade e erotismo. Geralmente se faz presente na convivência conjugal, na troca de carícias voltadas para a intimidade do casal (o ato sexual): “Amnom ficou angustiado ao ponto de adoecer por causa de sua meia-irmã Tamar, pois ela era virgem, e parecia-lhe impossível aproximar-se dela” (cf. 2 Samuel 13:2).
Amnom era meio-irmão de Tamar (filhos do mesmo pai, Davi) e ficou “fissurado” em possuí-la sexualmente. Duas coisas nos chamam a atenção, acerca desta passagem bíblica: a primeira, está relacionada a beleza de sua irmã: “Depois de algum tempo, Amnom, filho de Davi, apaixonou-se por Tamar; ela era muito bonita e era irmã de Absalão, outro filho de Davi” (cf. 2 Samuel 13:1).
Gostaríamos de fazer uma ressalva sobre o ato de se apaixonar: a paixão não costuma ser muito duradoura, diferentemente do amor. E isso é tão verdadeiro, que assim que ele teve a relação sexual com ela, ou seja, a desvirginou, a sua paixão transformou-se numa forte aversão (repulsa em relação a alguém ou a algo):” Fale com o rei (Davi); e ele deixará que eu me case com você. Mas Amnom não quis ouvi-la e, sendo mais forte do que ela, a violentou” (cf. 2 Samuel 13:13-14).
A segunda coisa, se refere a sexualidade de Tamar, pois ela era virgem: “Amnom ficou angustiado ao ponto de adoecer por causa de sua meia-irmã Tamar, pois ela era virgem, e lhe parecia impossível aproximar-se dela” (cf. 2 Samuel 13:2). Vale lembrar, que até em nossos dias (embora esteja sendo mais difícil encontrar), uma jovem pura e casta, ou seja, que mantém a sua virgindade, desperta o maior interesse de muitos homens.
Em alguns países, como a China, entre outros, os homens solteiros pagam até US$ 6 mil por mulheres solteiras (fonte: bbc.com). Jovens mulheres de origem árabe, estão pagando cerca de 2 mil euros (aproximadamente R$ 4,6 mil) por uma cirurgia realizada na França, para restaurar a sua virgindade. Um procedimento que, em muitos casos, pode salvar suas vidas (fonte: bbc.newsbrasil.com).
Nós, a “geração de ferro”, como tem sido chamada e identificada as pessoas com seus sessenta anos ou mais, vivenciamos muito a preocupação dos pais e, em muitos casos, das próprias filhas, em se manterem castas ou em pureza sexual, para o dia de seu casamento (para seu marido).
Em suma, achamos interessante retomarmos a este tema tão importante, conhecido e chamado de amor (mas pouco praticado ou feito de forma equivocada), tendo em vista que temos presenciado em nossos dias, um esfriamento total acerca deste sentimento, que se encontra registrado na Bíblia, que diz assim: “Por causa do aumento da iniquidade (pecado, injustiça ou desigualdade), o amor de muitos esfriará, mas aquele que perseverar até o fim será salvo” (cf. Mateus 24:12-14).
Portanto, que possamos nos portar igualmente nos ordena este texto do evangelista Mateus “perseverando” até o fim no amor e, se possível, colocá-lo em nossa prática cotidiana: o ágape – “Amar o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento” (cf. Mateus 22:37); os storge, phileo e eros – “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (cf. Mateus 22:39).
Lembre-se: “o próximo” desse texto, é qualquer ser humano ou pessoa e não somente os amigos mais chegados, os irmãos e os parentes mais próximos: “Vos dou um novo mandamento: Amai-vos uns aos outros, como eu vos amei” (cf. João 13:14).
[1] Homoafetivo. O termo é composto por duas palavras: “Homós” do idioma grego, que significa semelhante, enquanto que o sufixo em latim “Sexus”, se refere ao sexo. Portanto, é um relacionamento que envolve aspectos afetivos, sentimentais e sensuais, entre pessoas do mesmo sexo ou gênero.


